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Um Evangelho de fogo – Artigo 13/08/2016

Um Evangelho de fogo

EonildoParece um tanto fora de lugar, falar de “fogo aceso” nesses tempos de mudanças climáticas e aquecimento global. Aqui ainda mais, pelo calor intenso e dos vários anos de seca que castiga a natureza e torna a vida ainda mais dura.

O fogo, todos nós sabemos, não só aquece e dá vida, mas também queima, consome, destrói, deixando pouca chance de fuga pelo caminho.

O fogo como elemento destruidor tem muitas relações com o Evangelho desse domingo. Alias, não é a primeira vez, que Lucas, o “Evangelista da Misericórdia” nos fala do fogo destruidor como elemento ligado às coisas de Deus.

Quando João Batista entrou em ação, no inicio do Evangelho, apresenta o Messias que está por vir como aquele que “batiza com o Espírito Santo e o fogo” – batismo e fogo são as palavras chave do ensinamento de Jesus hoje. “Queimará a palha com o fogo inextinguível”. Mais adiante, na sua viagem para Jerusalém, Jesus passa pela Samaria e um povoado de samaritanos não o acolhe: talvez inspirados em João Batista, Tiago e João se atrevem a pedir que venha fogo destruidor do céu sobre os samaritanos incrédulos.

Hoje, novamente estas “palavras de fogo” saem da boca do próprio Jesus, em claro contraste com aquela imagem pacifica e misericordiosa com a qual Lucas pinta o Mestre no seu Evangelho; palavras que assumem tonalidades realmente acesas e violentas quando ouvimos Jesus proclamar: “não vim trazer a paz sobre a terra, mas a divisão”!

A primeira instintiva reação que me vem seria dizer: “Senhor, por favor, pelo menos tu! Já não basta os noticiários que nos levam da Líbia ao Iraque, passando pela França e pela Síria para as favelas do Rio de Janeiro e a nossa Quixadá navegando num rio de sangue! Pelo amor de Deus, nem no Evangelho ouvimos falar de paz”!

São reações normais, instintivas, mas devo confessar que eu também experimento grande embaraço quando tento compreender e explicar de modo correto – e não como incitação à violência, as palavras do Evangelho de hoje, que no fim ainda põe a cerejinha sobre a torta falando de Jesus como sinal de contradição capaz de provocar divisão e discórdia até no seio das relações familiares.

Portanto, partindo exatamente dos versículos finais, que não objetivam a divisão da família e da comunidade, mas descrevem aqueles que são os normais conflitos geracionais ao interno de uma família. Jesus fala de pai contra filho, de mãe contra filha, de sogra contra nora, e vice-versa, como frequentemente acontece nas famílias mais normais quando se desencontram os pontos de vista divergentes ligados às diferenças geracionais. O curioso é que não se fala de “irmão contra irmão”, mas de conflitos em linha vertical.

O “conflito” do qual Jesus fala, então é entre o antes e o depois, entre o velho e o novo ao interno da comunidade cristã, aquela comunidade que nasceu e cresceu nas antigas leis de Moisés, mas que agora deve abraçar o Evangelho como nova regra de vida.Mas a passagem dessa lei antiga para uma nova relação com Deus não é algo simples nem pacífico. É um processo complicado que cria agitação entre os discípulos de Jesus. Este é o fogo destruidor do qual fala Jesus; esta é a devastadora novidade do Evangelho quando entra na vida de uma pessoa e de uma comunidade.

Toda comunidade embasada sobre o Evangelho é chamada a viver o conflito entre o velho e o novo, entre a lógica do “sempre foi assim” e a lógica do “experimentemos mudar um pouco as coisas”.

Pe. Antonio Eronildo Oliveira

Vigário Geral da Diocese de Quixadá