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A partir dos últimos – Artigo 28/08/2016

EonildoA partir dos últimos 

Quando criança sempre observei com curiosidade o modo como as pessoas mais simples faziam os cálculos contando com os dedos das mãos. Isso se tornou mais curioso ainda quando vivi num país do primeiro mundo e vi que lá as pessoas também fazem os cálculos usando os dedos das mãos, só que ali as pessoas contam do um ao cinco partindo do polegar para o mindinho.

Aqui sempre vi as pessoas contarem de um a cinco partindo do mindinho para o polegar, ou seja, do menor para o maior.

Creio que isso seja comum a muitos outros povos. Mas especialmente os povos do “sul” do mundo, este mundo onde nós vivemos e onde se concentram a maioria dos pobres, deveriam ser contados por primeiro. Acontece exatamente o contrário: os pobres são a maioria, mas não são os primeiros. São os últimos, e às vezes não são nem vistos.

Talvez, penso eu, também Jesus fazia as contas partindo do mindinho para o polegar. Não só porque Jesus era da periferia do mundo, mas porque era “pequeno”. Sendo Deus se fez homem, sendo Senhor se fez o servo de todos. Jesus não nasceu “pequeno” como tantos de nós. Ele nasceu grande por força da paternidade da qual provinha. Depois, um lento processo de aniquilamento (de kenosis, como a Teologia define o esvaziamento), aprendeu a colocar-se do lado dos últimos, e portanto, a fazer-se ultimo e pequeno.

Também Jesus aprendeu a partir das experiências da vida: participando – quando era convidado – a algum banquete em sua honra, oferecido certamente não pelos últimos e pobres, mas por gente poderosa que bramava por escutar o mestre, principalmente para colocá-lo à prova, para observá-lo, como diz o evangelho de hoje.

Jesus aceita a prova, mas também ele observa com intensa atenção como muitos escolhem os primeiros lugares nos banquetes. Talvez observando os fariseus que não eram muito adeptos da pratica do “anular-se”, Jesus aprende a esvaziar-se, assumindo um caminho de humilhação que só terminará sobre a cruz, três dias antes de ressuscitar.

A comunidade cristã primitiva acreditava e sabia que Jesus é o Deus que se fez homem. Então é fácil compreender porque o evangelista põe na boca de Jesus essa estranha parábola. Estranha porque não é a simples narração de um evento ou de uma história do cotidiano: é um discurso dirigido em primeira pessoa aos que estão sentados à mesa com o Senhor, quase acusando-os “vocês escolheram a cadeira errada, porque assim fazendo demonstram muito pouca humanidade”.

O que tem a ver humanidade com os primeiros lugares nos banquetes? Tem a ver sim: escolher os primeiros lugares e as melhores cadeiras significa considerar-se os melhores, dignos dos lugares de honra ao lado do senhor da casa. Tudo bem que alguém é preciso que alguém ocupe o primeiro lugar: mas esteja tranqüilo que não será você – é o que Jesus diz.

Ser humano não é sentar-se no lugar de honra. É estar em contato com a terra, com o “húmus” do qual viemos e para onde retornaremos. Aqui é necessário algo de divino, uma sabedoria que entenda tanto das coisas da terra que não deixe perder o gosto pelas coisas do céu. É a virtude da humildade: “quem se humilha será exaltado”, extraordinário termo hebraico que aponta para a ressurreição. Porque não tem morte eterna para quem é humilde e não se esqueceu da terra da qual veio.

Não é a mesma coisa para quem faz de tudo para garantir a sua vida longa e tranqüila, quase eterna, sem dificuldades, às custas de poderosas amizades que partilham as honras da vida mundana. Este não ressurgirá. Porque continuará contando quantas pessoas podem entrar no seu banquete. E contará a partir do polegar, do maior até os mais insignificantes e ignorados, que na melhor das hipóteses até podem assistir de fora, mas continuam sempre fora do banquete.

Pe. Antonio Eronildo de Oliveira

Vigário Geral Diocese de Quixadá